Carnaval em todo o Estado: conheça parte da história carnavalesca do Paraná

A tradição carnavalesca teve início com a festa portuguesa do Entrudo e os bailes de máscaras, que começaram ainda no século XIX. Atual diversidade de formatos e expressões é resultado de um histórico festivo que vem sendo continuamente reinventado pelos paranaenses.
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13/02/2026 - 11:31
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Com festas tradicionais em cidades históricas, desfiles de escolas de samba, blocos independentes que crescem a cada ano e eventos temáticos que mobilizam diferentes públicos, o Carnaval no Paraná se consolidou como uma das principais manifestações culturais do Estado.

Só nas edições mais recentes, milhões de foliões participaram das programações no litoral, na capital e no interior. Em 2025, os festejos do Litoral atraíram mais de 1,3 milhão de pessoas, de acordo com a Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp), enquanto na capital o desfile de escolas de samba e a Zombie Walk, tradicional caminhada que reúne pessoas fantasiadas de zumbis, envolveram mais de 50 mil pessoas, de acordo com a Prefeitura. 

Curitiba, aliás, é conhecida por ter carnaval até para quem não gosta da festa. Além da Zombie Walk, há 25 anos a cidade é palco de um festival internacional de música chamado Psycho Carnival, o maior evento de psychobilly da América Latina. 

Dados compilados pelo Sindicato Empresarial de Hospedagem e Alimentação (SEHA) apontam que, em 2026, o fluxo será ainda maior que em anos passados: a rede hoteleira do Litoral já tem reservados para o feriado 90% dos leitos. Em Curitiba, as reservas chegam a 70%.

Essa diversidade de formatos e expressões é resultado de um histórico festivo que vem sendo continuamente reinventado pelos paranaenses. A tradição carnavalesca teve início com a festa portuguesa do Entrudo e os bailes de máscaras, que começaram ainda no século XIX e eram relatados nas páginas dos principais jornais da capital, e se transformou com os desfiles de rua que marcaram época ao longo do século XX. 

Para a secretária de Estado da Cultura, Luciana Casagrande Pereira, o carnaval é um momento fundamental no calendário cultural paranaense, mobilizando diferentes públicos em todo o Estado. “Além de seu valor simbólico e histórico, o carnaval tem impacto direto na economia. Ele movimenta a cadeia do turismo, da cultura e do comércio, gerando trabalho e renda temporária em diversos municípios”, afirma.

“Há aumento na ocupação da rede hoteleira, na demanda por serviços de alimentação, transporte e produção cultural. É um momento que articula diferentes setores e contribui para dinamizar a economia local durante o período festivo”, destaca a secretária.

Hoje, a tradição de escolas de samba, desfiles e festas populares, como o Banho à Fantasia, que acontece em Paranaguá desde a década de 1950, ou o Corso de Tibagi, que remonta ao primeiro desfile de Carnaval da cidade em 1910, coexiste com novas expressões de folia e celebração, como é o caso dos bloquinhos independentes de rua. 

“Eu participo de 10 blocos, estou em blocos de temáticas diversas. Pelos direitos LGBT+, pelos direitos feministas”, relata Sarah Valente, mais conhecida no cenário carnavalesco pelo nome artístico Sarah Caninana. “Hoje, temos cerca de 30 blocos em Curitiba. O número está crescendo muito, estamos tendo um aumento exponencial a cada ano”, afirma. 

Para Sarah, que participa de blocos como Ela Pode Ela Vai e Astrobloco, a ocupação da rua e a democratização da cultura são alguns dos principais objetivos dos blocos carnavalescos: “A cultura popular é uma festa da qual todo mundo participa, ela é para todo mundo, desde as pessoas das classes sociais mais altas às pessoas em situação de rua. A ocupação da rua pelos blocos é muito importante por esse caráter de levar a cultura popular e o direito à cultura para todos. Não é somente a música, a folia, é dizer que estamos aqui, somos visíveis e também temos direito a acessar a cultura”.

A pluralidade de manifestações culturais e tradições de celebração e folia que existem hoje foram forjadas ao longo de muitos anos de festejos. Conheça a história de algumas das celebrações carnavalescas mais icônicas do Paraná.

Antonina

Em Antonina, as celebrações remontam ao final do século XIX, quando as ruas eram tomadas por brincadeiras populares, como banhos d’água e pinturas de barro e graxa, e por foliões que dançavam e cantavam pela cidade. Os primeiros cordões e blocos carnavalescos com desfiles coreografados surgiram na década de 1920.

Carnaval em todo o Estado: conheça parte da história carnavalesca do Paraná
Antonina, décadas de 1930-1950. Foto: Acervo do Museu da Imagem e do Som do Paraná.

Atualmente, o Carnaval da cidade é marcado pela presença de escolas de samba tradicionais, como a Leões de Ouro e a Filhos da Capela, assim como blocos históricos, alguns com mais de 80 anos de existência. Outro momento bastante aguardado pelos foliões antoninenses é o desfile das Escandalosas, realizado na segunda-feira de Carnaval, quando homens se vestem com roupas femininas em uma manifestação de irreverência e bom humor.

A força da tradição carnavalesca antoninense também pode ser observada no retorno das transmissões do tradicional desfile de escolas de samba de Antonina, que será transmitido ao vivo pela TV Paraná Turismo. 

Tibagi

Já a tradição do Carnaval de Tibagi data do início do século XX, fortemente influenciada pela presença de migrantes que chegaram à região para trabalhar em garimpos. Em 1910, o farmacêutico pernambucano Manoel da Costa Moreira, conhecido como “Cadete”, organizou o primeiro desfile carnavalesco de Tibagi. É o que conta Neri Aparecido de Assunção, diretor do Museu Histórico Desembargador Edmundo Mercer Júnior: “o Cadete teve essa ideia de organizar o desfile. Pegou umas dez ou onze moças aqui da cidade e desfilou em torno da praça com uma carroça”.

Neri, que também é autor de “Carnaval Tibagiano e suas histórias”, livro que deve ser lançado em breve, afirma que “quando chegaram os baianos, mineiros e paulistas que vieram para o garimpo, eles resolveram formar blocos carnavalescos. Teve esse conjunto de blocos formados por garimpeiros e pessoas daqui de Tibagi, a partir da metade da década de 20”.

Ao longo dos anos 1950, popularizaram-se os bailes carnavalescos nos clubes: “O primeiro clube foi o Clube Centenário, que se uniu ao Clube Recreativo e se tornou, mais tarde, o Clube Tibagiano”, relata Neri. De acordo com o museólogo, o Clube Estrela da Manhã, que continua em funcionamento até hoje, foi criado para atender a população negra da cidade não muito tempo depois.

Carnaval em todo o Estado: conheça parte da história carnavalesca do Paraná
Tibagi, 1910. Foto: Acervo do Museu Histórico Desembargador Edmundo Mercer Júnior.

Até o final dos anos 90, o Carnaval ainda estava majoritariamente concentrado nos clubes. A partir dos anos 2000, os desfiles da Praça Edmundo Mercer iniciaram um processo de profissionalização. Hoje, o Carnaval de Tibagi é um grande evento que atrai dezenas de milhares de foliões todos os anos, e é considerado um dos maiores carnavais do Paraná. Já não acontece o Desfile de Luxo, com temas e carros alegóricos elaborados, mas a tradição é mantida pelo Corso, um desfile competitivo integrado por grupos que utilizam da criatividade para maravilhar os foliões. 

Paranaguá

Em Paranaguá, o que faz mais sucesso é o Pré-Carnaval, que já é considerado um dos maiores do Sul do país. O tradicional Banho à Fantasia, que acontece desde a década de 1950, estabeleceu um novo recorde de público em 2026, de acordo com a Prefeitura: mais de 50 mil pessoas compareceram ao Centro Histórico no dia 8 de fevereiro para um desfile com blocos, carros de som e fantasias irreverentes. Outra atividade tradicional é o Carnailha, que percorre as ruas da Ilha dos Valadares há 21 anos com trios elétricos, marchinhas e muita alegria.

Ponta Grossa

Em Ponta Grossa, as primeiras celebrações carnavalescas datam do século XIX, mas o Carnaval de Rua teve seu auge entre os anos 1930 e 1940. Além das batalhas de rua com baldes d’água, acontecia então o Corso: carros particulares, decorados com alegorias, circulavam com foliões que cantavam, dançavam e jogavam confetes e serpentinas nas calçadas e em outros carros.

Carnaval em todo o Estado: conheça parte da história carnavalesca do Paraná.
Ponta Grossa, sem data. Foto: Acervo do Museu Paranaense.

Durante a Segunda Guerra Mundial e o Governo Vargas, porém, as celebrações perderam força, conforme registrado pelo Diário dos Campos em matéria de 1945: “Faltaram este ano os elementos para o carnaval de rua: não há corso, devido ao racionamento da gasolina, não há lança-perfume; não há serpentina e nem confete, e porque não dizê-lo; a vida está tão cara que o Zé-povo não pode prejudicar o seu orçamento doméstico com as despesas que a folia acarreta”. As festividades passaram a se concentrar nos clubes privados, como o Guarani, Thalia e Democrata. Hoje em dia, o Carnaval ponta-grossense se caracteriza pelos blocos, desfiles de escolas de samba, concursos, bailes populares e muita energia.

Centenário do Sul

Já o Carnaval de Centenário do Sul se consolidou como um dos mais vibrantes do Norte do Paraná em poucas décadas. Com apenas 22 anos de existência oficial, o Carnaval de Rua de Centenário do Sul é considerado o maior do Norte. Ronaldo Pereira da Silva, secretário municipal de Cultura, Esporte e Lazer, explica a importância da festividade: “Gera muito emprego direto e indireto, a economia criativa é fomentada pelo turismo. Tem muitas pessoas que moram fora, como Londrina, Maringá e Curitiba, e visitam os parentes de Centenário do Sul nesta época para aproveitar a festa”.

O secretário explica também que a expectativa para o Carnaval deste ano é alta, “nós esperamos um público de 35 mil pessoas durante os três dias de evento, uma média de 12 mil pessoas por dia”. 

Curitiba

O Carnaval de Curitiba teve início no século XIX, influenciado pela tradição portuguesa do entrudo: nos três dias anteriores à Quaresma, populares ocupavam as ruas e viravam as cidades de cabeça para baixo com brincadeiras de jogar água, lama, farinha e polvilho. Nessa festividade, que antecedeu os cordões carnavalescos, foliões de distintas classes sociais dançavam e cantavam juntos.

Em Curitiba, os festejos em clubes sociais, onde aconteciam bailes de máscaras de influência europeia, se popularizaram: o primeiro registro de um baile carnavalesco na cidade data de 1857, noticiado pelo jornal Dezenove de Dezembro.

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Curitiba, início do século XX. Foto: Acervo do Museu Paranaense.

No começo do século XX, o aspecto popular do Carnaval curitibano se intensificou. O desfile do Corso passou a animar a Rua XV de Novembro. Nos anos 1930, diversos cordões e blocos carnavalescos surgiram. 

Em 1947, a primeira escola de samba da cidade é fundada. Com base na Vila Tassi, região operária com grande população negra, a Colorado foi criada sob a influência de Ismael Cordeiro da Silva, conhecido como Maé da Cuíca. O sambista foi responsável por criar o primeiro samba-enredo de Curitiba. Até os anos 1970, os desfiles aconteciam na Rua XV de Novembro. Desde então, são realizados na Rua Marechal Deodoro. 

Entre os personagens clássicos da folia curitibana, está José Arnaldo Cardoso Nascimento, mais conhecido nas escolas de samba e baterias da cidade como Seu Divino. A relação do sambista com o Carnaval é antiga: filho de pais amantes da festa, Seu Divino começou a pular carnaval com quatro anos de idade, em Paranaguá. Aos 13 anos, em 1961, sua família mudou-se para Curitiba. Foi então que Seu Divino se uniu à escola Colorado. “Sempre amei participar do carnaval. Foi no tamborim que achei meu primeiro lugar dentro de uma escola, e me desenvolvi muito a partir dali”, afirma. 

Para Seu Divino, a folia é seu lugar: “O carnaval é a minha paixão. Assim como o torcedor ama seu time e o pescador ama a calmaria do momento da pesca, eu sou apaixonado pelo que faço. Essa é minha forma de viver, enquanto Deus permitir”. Atualmente, Seu Divino atua como assessor de Escolas de Samba, como a Leões da Mocidade e Deixa Falar, dedicando-se à harmonia e ritmo das baterias que fazem a alegria acontecer. 

Hoje em dia, o Carnaval de Curitiba se caracteriza por sua pluralidade: desfiles de escolas de samba que alegram a Marechal, blocos de pré-carnaval que lotam o Largo da Ordem de foliões, e até mesmo eventos alternativos, como a Zombie Walk: caminhada temática de zumbis que reúne dezenas de milhares de entusiastas do terror, sempre fantasiados, há 16 anos.

Em Curitiba e no Paraná todo, o Carnaval combina manifestações culturais históricas com expressões emergentes de folia e alegria, trazendo pluralidade estética, política e cultural às celebrações da maior festa popular do país, e atestando a capacidade de reinvenção do povo paranaense.

 

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