Teatro José Maria Santos ganha documentário no aniversário de 28 anos

O Centro Cultural Teatro Guaíra lança o documentário “Teatro José Maria Santos: Estamos Juntos!”, que traça a trajetória do prédio histórico e recupera memórias do ator, diretor e professor que contribuiu para a criação de um dos palcos mais queridos da cena paranaense.
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26/06/2026 - 15:23
Editoria

O Centro Cultural Teatro Guaíra (CCTG) comemora neste sábado (27) os 28 anos do Teatro José Maria Santos. Para marcar a data, o Centro Cultural Teatro Guaíra lança o documentário “Teatro José Maria Santos: Estamos Juntos!”, que traça a trajetória do prédio histórico e recupera memórias do ator, diretor e professor que contribuiu para a criação de um dos palcos mais queridos da cena paranaense. O material está disponível a partir desta sexta-feira (26) no canal do YouTube do Centro Cultural Teatro Guaíra.

Dividido em três partes, o documentário de 23 minutos mostra como a história do teatro está intimamente ligada à luta de quem fez do palco o próprio ofício. Também foram resgatados depoimentos em vídeos de artistas que participaram da mobilização para manutenção do teatro em um dos períodos mais delicados da história do teatro Zé Maria, quando quase foi demolido e transformado em um estacionamento.

A trajetória de um teatro - Os primeiros anos da década de 1980 foram tempos difíceis para a produção teatral curitibana. A cidade dispunha de poucos espaços cênicos e muitos deles permaneciam ociosos por grande parte do tempo. Segundo depoimento do ator Enéas Lour, gravado antes de seu falecimento em 2024, era um período de profissionalização da classe e de muitas discussões dentro da categoria, com uma parte dos artistas defendendo a ação governamental e subsídios do Estado para as artes cênicas, e uma parte deles que apostava na iniciativa privada. Entre estes últimos, figurava José Maria Santos, que sustentava a tese de que a classe teatral devia possuir um espaço cênico próprio, capaz de abrigar temporadas prolongadas.

A partir desta proposta, nascia no início da década de 1980 o Teatro da Classe, capitaneado por José Maria Santos. Localizado na rua 13 de Maio em um prédio do século XIX - que abrigou originalmente uma malharia - o local abrigava anteriormente a Fábrica do Samba e era usado pela Prefeitura para ensaios de escolas de samba da cidade. Quando se tornou teatro, abrigou no mesmo espaço uma escola de dança e um restaurante que também era destinado a apresentações teatrais e musicais e que era administrado pelo ator Roberto Menghini. A administração do Teatro da Classe ficava a cargo da Associação dos Produtores de Espetáculos Teatrais do Paraná (APETEP‑PR), da qual José Maria era presidente.

A estreia do novo espaço ocorreu em março de 1982, com a comédia “A Reputação de Quatro Bicos”, com texto de Luiz Groff, direção de Oraci Gemba e atuação de José Maria Santos. Após a temporada desta peça, a rotina administrativa mudou. Em 1983, José Maria deixou a presidência da APETEP e José Basso assumiu a direção do Teatro da Classe. Em 1986, durante uma reunião da associação de artistas, ficou definido que o teatro seria administrado por quatro grupos, que iriam dividir a gestão do espaço. Eram eles: a Tamanduá Produções liderada pelo iluminador cênico Beto Bruel e pela atriz Regina Bastos, a NBP Produções dos atores Nautilio Portela e Claudete Pereira Jorge, a M&S Produções do ator Mário Schoemberger e Divinos Comediantes do Teatro, companhia do ator Francisco Moura. Assim, o Teatro da Classe ganharia também um novo nome: surgia ali o Teatro 13 de Maio.

O novo teatro passou a abrigar uma extensa e diversificada programação semanal com espetáculos de teatro, dança, jazz, música sertaneja, música erudita, rock e happenings nas segundas‑feiras comandados pelo poeta Paulo Leminski. O saguão também foi ocupado por exposições de artes plásticas e fotografia, ampliando o uso cultural do espaço.

Apesar do esforço e da intensa movimentação no período, o teatro apresentava ameaça de despejo dos donos do imóvel e risco de demolição, com a iminência de venda do terreno para a construção de um estacionamento. Foi a mobilização de companhias e grupos teatrais que evitaram a perda do imóvel. O iluminador Beto Bruel relata que vários artistas se uniram para evitar a demolição. "Gilberto Gil fez um show aqui e falou sobre a situação do teatro na época, em um show que ele fez no Guairão. Ele disse no meio da apresentação: como é que Curitiba vai deixar demolir um teatro?”, conta Bruel.

O ator Nautilio Portela relembra também dos tempos do Teatro 13 de Maio e do compromisso do escritor Paulo Leminski na campanha pela manutenção do espaço, quando o poeta ajudou a produzir textos para cartazes e fez apresentações semanais para atrair o público. “Ele se apresentava toda segunda-feira com convidados, teve uma apresentação icônica com Grafite, que estava começando a carreira. E um dos folhetos que ele fez em defesa do teatro, ele fez uma comparação genial, em que ele trazia uma lista de animais que estavam ameaçados de extinção e terminava falando do Teatro 13 de Maio”, conta.

"A criação desse espaço foi fruto de um movimento muito grande da classe teatral, que pediu ajuda ao secretário da Cultura da época, o jurista René Ariel Dotti, que abraçou a causa. Foi um movimento amplo, com várias companhias e grupos teatrais lutando pela existência desse teatro, para tombar e adquirir o imóvel", recorda Áldice Lopes, diretor artístico do Centro Cultural Teatro Guaíra.

Em 1988, o prédio foi tombado pelo Patrimônio Cultural do Paraná; em 1989 passou pelo processo de desapropriação pelo Governo do Estado; e, em 1991, recebeu oficialmente o nome do Teatro José Maria Santos, um ano após o falecimento do artista, ocorrido em janeiro de 1990.

O lançamento do documentário “Teatro José Maria Santos: Estamos Juntos!”, que inclui imagens do acervo de Ulisses Iarochinski, do Teatro da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (TUT/UTFPR), registros de Fábio Freitas e Edu Ramos, é também um convite à reflexão sobre a preservação do patrimônio cultural e o protagonismo dos artistas na gestão de seus espaços.

Para a classe artística paranaense, a memória de José Maria permanece viva: o teatro que ele tanto lutou para manter foi reinaugurado em 27 de junho de 1998 e, desde então, tornou-se símbolo de resistência e do fazer teatral coletivo no Paraná. “O Zé Maria tinha uma relação muito próxima com o Guaíra, em vários aspectos: havia críticas, claro, mas também um alinhamento dele nesta ideia de 'vamos juntos' para que tudo funcionasse, para que o teatro progredisse e tivéssemos mais opções de espaço. Por isso, acredito que foi um presente o Teatro José Maria Santos fazer parte do Centro Cultural Teatro Guaíra. Creio que o Zé Maria deve estar olhando lá de cima para nós agora, muito feliz, vendo o teatro como está hoje, um espaço que ele tanto gostava”, conclui Cleverson Cavalheiro, ex-aluno de José Maria Santos e diretor‑presidente do Centro Cultural Teatro Guaíra.

ATOR VISIONÁRIO — Além de ator e diretor, José Maria atuou como produtor e professor de teatro por mais de três décadas, formando gerações e fortalecendo a cena teatral paranaense. Sua atuação como articulador contribuiu para a criação do Sindicato dos Artistas e da Associação dos Produtores em Espetáculos Teatrais do Paraná e, com essas entidades, ajudou a criar o teatro que hoje homenageia seu nome.

Ulisses Iarochinski, ex-aluno, ator, jornalista e documentarista, autor do livro “VivaZé José Maria Santos – ator do Paraná” e do documentário “José Maria Santos – O Arteiro do Paraná” lembra a energia empreendedora e a dedicação ao ofício que levou o artista a acumular diversas funções e a conciliar o teatro com outros trabalhos, como vendedor em loja de tecidos no centro de Curitiba, para garantir o sustento da família e dos projetos artísticos. Ulisses ressalta também a impressionante marca de 1.800 apresentações do monólogo Lá, de Sérgio Jockyman, ao longo de 18 anos. “Ele era incansável e foi um verdadeiro exemplo, um dos grandes atores do Paraná”, afirma.

A relevância de Zé Maria teve reconhecimento nacional: em 1977, recebeu o Kikito de Ouro no Festival de Gramado pela interpretação do personagem Dr. Aurélio, no filme Aleluia Gretchen, de Sylvio Back — feito notável por ter sido conquistado sem que o ator precisasse deixar Curitiba, cidade onde atuou por mais de três décadas. Atualmente, a estatueta está exposta em um dos corredores do Teatro José Maria Santos, junto a outros objetos e fotos que preservam a memória e o legado do artista.

 

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